Por Mariana Bria, especial para a Envolverde
A relação entre as mídias sociais e a sustentabilidade foi o tema abordado no Painel 2 do primeiro dia (17/11) do IV Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, realizado durante os dias 17, 18 e 19 de novembro na PUC-RJ. O debate, mediado por Henrique Camargo, contou com a presença de Neuza Árbocz, Alan Dubner, Rizzo Miranda e Ismar Soares, que falaram sobre os limites e possibilidades da utilização das mídias sociais na propagação de causas sustentáveis.
Henrique Camargo abriu o painel perguntando ao público quem fazia uso da internet. Foi unânime a resposta afirmativa da plateia. Em seguida, o mediador ressaltou a importância de se saber para o que servem essas mídias e como temas importantes estão sendo tratados nesses novos veículos de comunicação. A declaração de Henrique introduziu e contextualizou o tema e os principais objetivos do painel. Neuza Árbocz também iniciou sua palestra perguntando ao público quem fazia uso das redes sociais, mas dessa vez surpreendeu a todos perguntando “quem já aprendeu algo prático nas redes sociais para diminuir seus impactos ecológicos?” Diferentemente da resposta à primeira pergunta, poucos levantaram a mão.
“Minha esperança é usar a mídia para espalhar o que vale mais a pena”, disse a jornalista. Neuza acredita que a riqueza das redes é a possibilidade de contato direto com pessoas que realmente se interessam por projetos sustentáveis. “As mídias sociais potencializam a troca”, afirmou. Para que as trocas sejam efetivas e positivas, ela também ressaltou a importância de “seguir pessoas que estão empenhadas na mesma luta e saber a opinião de alguém engajado”. A jornalista destacou a importância das redes na função de disseminar soluções, construir confiança entre os seres humanos e promover a cidadania planetária.
Neuza Árbocz ressaltou que o grande perigo da rede é a “Revolução do Sofá”, mas que ainda assim muitos movimentos têm se iniciado nas mídias sociais e ganhado visibilidade. Alguns casos recentes, como o do “twittaço” #forasarney contra o senador José Sarney; e a ação ano contra o uso de peles de animais na coleção da loja Arezzo foram exemplos citados. A revolução que derrubou o ex-ditador do Egito Hosni Mubarak foi um exemplo de manifestação que começou na internet, mas que em um segundo momento levou a população às ruas. Segundo ela, o caso da revolução no Egito “nos faz lembrar do poder da nossa presença física e que devemos usar nossas mãos para promover as mudanças que queremos ver no mundo”.
O palestrante Alan Dubner focou seu discurso não no papel da mídia, mas sim nas suas possibilidades e de que forma sua relação com a sustentabilidade realmente acontece. Ele enfatizou como a forma de acesso à informação se alterou a partir da existência da internet e ressaltou o fato de que hoje a informação que uma pessoa detém pode ser completamente desconhecida pelos outros indivíduos da sociedade. Isto porque “a informação não está mais pasteurizada, cada um a vê como quer e cada um produz o seu próprio conteúdo”.
Alan Dubner citou alguns sites e mídias sociais que podem caracterizar essa mudança na forma de se produzir e divulgar informações. No site do jornal britânico The Guardian, jornalistas podem contribuir na construção de um amplo material sobre a Primavera Árabe. O site do blog Huffington Post é um exemplo de como a informação pode ser passada de forma diferente. E o movimento bluemarbles.org distribui pelo mundo um milhão de bolas de gude azuis, que devem ser dadas a quem realmente faz a diferença para o planeta.
Dubner citou, por fim, o Play The Cool, um jogo virtual, mas que provoca mudanças reais no mundo. “Existe uma quantidade enorme de coisas acontecendo nas mídias sociais e que não sabemos”, disse o palestrante, ressaltando que o jornalismo ambiental tem a gigantesca responsabilidade de ajudar a promover informações e usar as redes para divulgá-las colaborativamente. Desta forma mais pessoas podem ter acesso a informações relevantes e que muitas vezes ficam escondidas por não serem anunciadas pela grande mídia.
Envolver para mudar – Rizzo Miranda, diretora da agência FSB Digital, deu um depoimento de como as redes sociais trabalham com a questão do engajamento. Para exemplificar a questão ela falou sobre um case desenvolvido pela agência FSB para o Governo do Rio de Janeiro e premiado em Cannes (França) com o Leão de Prata na categoria “Melhor uso de mídia social”. O trabalho foi desenvolvido com o objetivo de promover, por meio de redes sociais, a mobilização popular a retomada, pelo Estado, do Complexo do Alemão, ocorrida em 2010 no Rio. Rizzo enfatizou em sua palestra o quanto o cidadão 2.0 está conectado e o papel das redes como meio e não fim. Para ela, as redes sociais pressupõem pertencimento e “o cidadão quer fazer algo que mude a sua vida”.
Rizzo Miranda falou ainda sobre as principais estratégias utilizadas para criar e consolidar uma boa reputação e credibilidade para o Governo do Rio. Houve ainda a exibição de um vídeo com imagens da campanha. Ao fim de sua palestra, a diretora da agência FSB disse que esse tipo de ação deve ter como finalidade “mudar a postura das pessoas para a atitude coletiva” e a principal função das redes sociais é promover o “transbordamento para o off-line”. A mobilização com as redes sociais deve ter como principal meta “fazer o cidadão 2.0 se engajar e conseguir fazer com que as pessoas permaneçam no engajamento”.
A última palestra do painel foi realizada por Ismar Soares, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O professor enfocou sua palestra nas experiências de relação entre comunicação e educação. Essas experiências podem ocorrer por meio de agentes culturais, da mídia ou de organizações não governamentais, muitas vezes incentivadas pelo terceiro setor e pela iniciativa privada. Ismar Soares ressalta, entretanto, que “o sistema educacional brasileiro ainda é muito marcado por paradigmas e correntes tradicionais extremamente cuidadosas com relação às novas tecnologias”. Em contrapartida à fraca utilização de tecnologias em escolas, o sistema social investe cada vez mais em crianças com vistas a torná-las futuras consumidoras, dando prosseguimento à lógica de formação de novos mercados.
Diante de tal contexto, o professor Ismar Soares lança o questionamento: “Como envolver as crianças na questão do uso das tecnologias para a sustentabilidade?” A partir desta pergunta, diversas pesquisas foram desenvolvidas na América Latina nos últimos anos como o intuito de tentar promover programas e projetos de inserção dos meios de tecnologia nas escolas. Como exemplo de experiência de educomunicação socioambiental, Ismar Soares citou o projeto Educomrádio, pelo qual o rádio foi introduzido, há 16 anos, com o apoio do Núcleo de Pesquisas da USP em escolas municipais paulistas. O professor destacou o fato de 7 mil programas de rádio terem sido produzidos e 70% dos assuntos abordados diziam respeito ao meio ambiente.
O trabalho educomunicativo, segundo Soares, “está colaborando para que a comunidade toda possa refletir sobre determinados temas”. Para ele, há por meio da educomunicação uma experiência prática que envolve toda a comunidade e em um contexto em que é fundamental uma gestão democrática e participativa dos meios de comunicação. Segundo o professor, “existe um espaço de aliança entre os profissionais de educação e os profissionais de comunicação que tem chamado a atenção de muitas crianças e jovens sobre diversos temas, sobretudo meio ambiente”. Ismar Soares encerra sua palestra salientando que a questão que deve ser estudada é como se chegar até eles.

















A sustentabilidade não é apenas opção, mas uma imperiosidade à vida. E as redes sociais são divulgação rápida e democrática, com a vantagem de que o usuário pode selecionar e conferir a veracidade das informações recebidas com relativa facilidade. Parabéns à reporter pelo resumo abrangente das palestras e debates ocorridos no IV Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambienta acerca do tema.
Excelente artigo Mariana! Retratou muito bem todo diálogo que ocorreu.